Resumo
Introdução: O teto etmoidal e a fossa olfatória formam o segmento mais fino e vulnerável da base anterior do crânio durante a cirurgia endoscópica dos seios paranasais e da base do crânio. Keros classificou a profundidade da fossa olfatória em três tipos com base na altura da lâmina lateral, sendo o tipo III a configuração mais profunda e perigosa.1 Essas estruturas localizam-se entre a fossa craniana frontal e os corredores do osso etmoide e dos seios paranasais, apresentando variação substancial relacionada a etnia e idade.2
Materiais e métodos: Esta síntese narrativa e orientada por dados combina uma revisão sistemática recente de variantes da parede lateral nasal e da base anterior do crânio com grandes coortes de TC e CBCT focadas na classificação de Keros e na assimetria do teto etmoidal.2 Estudos foram incluídos se relatassem distribuição do tipo de Keros ou assimetria inter-lateral em populações não operadas. Quando possível, dados laterais foram resumidos em percentuais por indivíduo; nenhum novo tamanho de efeito meta-analítico foi calculado.
Resultados: Em séries representativas de TC e CBCT do Brasil, Egito, Turquia, Índia e Paquistão, o tipo II de Keros predomina consistentemente, representando tipicamente cerca de 60–75% das fossas, com o tipo I sendo comum e o tipo III um padrão minoritário.3, 5 A prevalência do tipo III varia de cerca de 0,5–1% em coortes brasileiras e egípcias até aproximadamente 10–11% em dados turcos e 31% em uma série recente de TC paquistanesa, destacando gradientes de risco regionais genuínos.4, 8 A assimetria da altura do teto etmoidal ou do tipo de Keros também é comum, afetando aproximadamente 7–40% dos pacientes, dependendo da definição utilizada.3, 4
Conclusões: Dados modernos baseados em TC e CBCT confirmam que o Keros II é o padrão dominante mundialmente, mas a proporção de fossas profundas Keros III e a assimetria do teto variam substancialmente entre populações. Para a cirurgia endoscópica dos seios paranasais e da base anterior do crânio, a revisão rotineira lateralmente específica do tipo de Keros, da inclinação do teto etmoidal e da assimetria da lâmina lateral em TC de cortes finos permanece essencial para evitar complicações catastróficas da base do crânio e orbitais, particularmente em coortes com maior prevalência de Keros III.2, 12
Palavras-chave: teto etmoidal; classificação de Keros; fossa olfatória; lâmina lateral; base anterior do crânio; cirurgia endoscópica dos seios paranasais; anatomia por TC; CBCT; seios paranasais; lesão da base do crânio.
Introdução
O teto etmoidal e a fossa olfatória formam o segmento mais fino da base anterior do crânio e são um locus minoris resistentiae bem reconhecido durante a cirurgia endoscópica funcional dos seios paranasais (FESS) e procedimentos endonasais estendidos da base do crânio.11 A lâmina lateral da lâmina crivosa é particularmente frágil, e sua profundidade determina a proximidade do trabalho cirúrgico com os conteúdos intracranianos.
Keros originalmente classificou a profundidade da fossa olfatória em três tipos com base na altura da lâmina lateral: tipo I (1–3 mm), tipo II (4–7 mm) e tipo III (8–16 mm), com risco crescente de lesão da base do crânio do tipo I ao III.1 Estudos subsequentes baseados em TC confirmaram que o Keros II geralmente predomina, mas a proporção de fossas profundas tipo III varia amplamente entre populações.
Uma revisão sistemática e meta-análise recente de variantes da parede lateral nasal e da base anterior do crânio destacou diferenças geográficas significativas na distribuição de Keros e na assimetria do teto etmoidal, com implicações para o risco de complicações na FESS e em abordagens estendidas.2 A TC e a CBCT tornaram-se, portanto, ferramentas pré-operatórias obrigatórias, fornecendo um mapa tridimensional do osso etmoide, do corredor da artéria etmoidal anterior e da base do crânio.9
Séries individuais de TC do Brasil, Egito, Turquia, Índia e Paquistão mostram padrões amplamente semelhantes de predomínio do Keros II, mas diferem nas proporções relativas dos tipos I e III e na frequência de discordância inter-lateral.3, 4 Quantificar essas diferenças é importante para entender o risco específico da população e para orientar cirurgiões que operam em regiões com maior carga de fossas profundas.
Este artigo sintetiza dados baseados em TC e CBCT sobre a classificação de Keros e a assimetria do teto etmoidal, enfatizando padrões globais, outliers regionais e mensagens práticas para cirurgiões da base do crânio e dos seios paranasais.
Materiais e Métodos
Esta síntese baseia-se em uma revisão sistemática e meta-análise recente da anatomia da parede lateral nasal e da base anterior do crânio, combinada com grandes estudos selecionados de TC e CBCT que relatam especificamente a distribuição do tipo de Keros e/ou a assimetria do teto etmoidal.2 Prioridade foi dada a coortes radiológicas com ≥200 pacientes ou ≥400 fossas, definições claras de Keros e relato lateralmente específico.
Cohortes-chave de TC incluíram séries brasileiras, egípcias, turcas, indianas e paquistanesas de adultos ou populações de idade mista submetidas a imagem da cavidade nasal e dos seios paranasais para indicações clínicas de rotina.3, 5 Dados de CBCT de um estudo de 2022 sobre variantes do teto etmoidal e da base do crânio também foram considerados para ilustrar como a imagem volumétrica mais recente se compara com a TC multislice.3
Para cada estudo, extraímos as frequências relativas dos tipos de Keros I–III (por fossa ou por lado), qualquer assimetria de Keros por indivíduo relatada e medidas de assimetria da altura do teto ou da configuração da lâmina lateral, quando disponíveis.4, 7 Como muitos relatórios primários usaram denominadores e faixas etárias diferentes, apresentamos percentuais descritivos arredondados para o número inteiro mais próximo, em vez de recalcular tamanhos de efeito agrupados.
Dados de complicações e considerações mais amplas de risco da base do crânio foram resumidos a partir de grandes séries de FESS e revisões de imagem da base do crânio, focando em como a classificação de Keros e a assimetria do teto influenciam a tomada de decisão intraoperatória, em vez de modelagem formal de risco.10, 12
Resultados
Distribuição Global de Keros
Em coortes modernas de TC e CBCT, o Keros II é consistentemente o padrão mais frequente, geralmente representando cerca de dois terços das fossas. Em um grande estudo brasileiro de TC com 200 pacientes, Souza et al. relataram Keros II em 73,3% das fossas, Keros I em 26,3% e Keros III em apenas 0,5%.7 Trabalho egípcio com MDCT encontrou similarmente o Keros II como o padrão dominante, com Keros I comum e Keros III restrito a uma minoria muito pequena de casos.6
Uma série pediátrica de TC da Turquia (780 fossas) demonstrou Keros I, II e III em 24,7%, 65,9% e 9,4%, respectivamente, confirmando novamente um forte predomínio do Keros II, mas com uma proporção maior de fossas profundas do que na coorte brasileira.3 A assimetria da profundidade da fossa olfatória nesta coorte foi identificada em 7,4% dos pacientes, mostrando que mesmo em crianças, diferenças lateralmente específicas são comuns.3
Dados de CBCT avaliando o teto etmoidal usando as classificações de Keros e relacionadas em populações de idade mista produziram proporções gerais semelhantes, com Keros II tipicamente em torno de 60–70% e Keros III permanecendo a categoria menos frequente, mas clinicamente crítica.3 A Figura 1 resume a distribuição dos tipos de Keros da grande série pediátrica turca de TC como um conjunto de dados moderno representativo.
Figura 1: Distribuição representativa de Keros em uma grande coorte de TC
Distribuição dos tipos de Keros I–III em uma série turca de TC pediátrica de 780 fossas olfatórias (Güven et al. 2022), ilustrando a predominância de Keros II e uma minoria de fossas profundas do Tipo III.
Variação Regional e Keros III
Kaplanoglu et al. analisaram 1.000 fossas de 500 adultos turcos e encontraram Keros I, II e III em 13,4%, 76,1% e 10,5%, respectivamente, indicando uma carga relativamente alta de fossas profundas em comparação com séries brasileiras e egípcias.5 O mesmo estudo relatou assimetria do tipo de Keros (tipos de Keros diferentes em cada lado) em cerca de 6% dos pacientes, ressaltando a necessidade de avaliar cada lado separadamente.5
Em uma coorte indiana de TC de cuidados terciários com 256 pacientes, Naaz et al. observaram que 82% dos indivíduos tinham Keros II em ambos os lados, enquanto Keros III ocorreu em 5,1% das fossas direitas e 3,5% das fossas esquerdas, com discordância do tipo de Keros entre os lados em 16,8% dos pacientes.4 A assimetria da altura da lâmina lateral, usando uma definição mais ampla, estava presente em 40,6% dos pacientes, muito maior do que a discordância limitada apenas do tipo de Keros sugeriria.4
O trabalho egípcio de TCMD por Elwany e colegas relatou Keros I e II em aproximadamente 42,5% e 56,8% das fossas, respectivamente, com Keros III detectado em uma fração muito pequena de pacientes do sexo masculino e em nenhuma das mulheres, colocando a prevalência geral de Keros III perto de 1%.6 Dados brasileiros de TC de Souza et al. mostraram uma prevalência de Keros III ainda menor de 0,5%, indicando um perfil de teto etmoidal comparativamente mais seguro nessa coorte.7
Em contraste, um recente estudo paquistanês de TC de Karachi usando classificações combinadas de Keros e Yenigun encontrou Keros II, III e I em 43%, 31% e 26% das fossas, respectivamente, destacando uma proporção substancialmente maior de fossas profundas do tipo III do que em muitas séries anteriores.8 Tal variação regional está alinhada com a revisão sistemática mais ampla de Zahedi et al., que mostrou agrupamento geográfico significativo de configurações de alto risco da base do crânio anterior.2
A Figura 2 mapeia a prevalência relatada de Keros III em coortes-chave de TC para ilustrar como a carga de fossas profundas – e, portanto, o risco potencial da base do crânio – varia entre as populações.
Figura 2: Prevalência de Keros III em coortes selecionadas de TC
Geo-distribuição da prevalência do tipo de Keros III a partir de estudos de TC representativos no Brasil, Egito, Índia, Turquia e Paquistão.
Assimetria do Teto Etmoidal
Além do tipo absoluto de Keros, a assimetria da altura do teto e da configuração da lâmina lateral é um determinante importante do risco da base do crânio, porque a dissecção inadvertida tende a seguir o lado mais raso. Na coorte brasileira de TC de Souza, a assimetria de altura do teto etmoidal estava presente em 12% dos pacientes e a assimetria de contorno em 48,5%, com achatamento do teto em um lado em quase metade dos casos.7
Kaplanoglu et al. definiram assimetria de altura significativa como uma diferença >1 mm na profundidade da lâmina lateral e a encontraram em 80% dos pacientes, embora a discordância no tipo de Keros entre os lados fosse muito menos frequente, em aproximadamente 6%.5 Esse padrão sugere que os cirurgiões não devem confiar apenas no tipo de Keros, mas também na profundidade absoluta e na inclinação do teto, ao planejar seu plano de dissecção superior.
Na coorte indiana de Naaz et al., 40,6% dos pacientes demonstraram assimetria de altura da lâmina lateral, e quase um em cada seis tinha tipos de Keros diferentes em cada lado.4 Séries indianas maiores de TC com 1.200 pacientes por Babu et al. também relataram variação inter-lateral substancial na profundidade da fossa olfatória, com tipos de Keros discordantes em aproximadamente um quinto dos casos.9
Dados pediátricos turcos de Güven et al. adicionam mais nuances, mostrando assimetria de Keros em 7,4% das crianças, apesar de uma predominância geral de Keros II, indicando que diferenças laterais clinicamente relevantes já estão estabelecidas no início da vida.3 A Figura 3 compara a prevalência de Keros III com as taxas de assimetria do teto em três coortes de TC bem caracterizadas para enfatizar como fossas profundas e assimetria frequentemente se agrupam, mas não se sobrepõem perfeitamente.
Figura 3: Fossas profundas e assimetria do teto em coortes-chave de TC
Comparação de barras agrupadas da prevalência de Keros III e da assimetria do teto etmoidal em séries de TC brasileiras, turcas e indianas.
Discussão
Esta síntese reforça três mensagens centrais para cirurgiões que atuam na região do teto etmoidal. Primeiro, o tipo Keros II é o padrão predominante mundialmente em conjuntos de dados de TC e CBCT, geralmente representando cerca de dois terços das fossas, com o tipo I comum e o tipo III consistentemente a variante menos frequente, porém mais perigosa.2, 7 Isso apoia o uso contínuo da classificação de Keros como um descritor simples e clinicamente significativo da profundidade da base do crânio anterior.
Segundo, existe uma variação regional genuína na prevalência de fossas profundas. Coortes brasileiras e egípcias mostram prevalências de Keros III abaixo de 2%, enquanto séries turcas e indianas relatam valores em torno de 9–11% e 3–5%, respectivamente, e uma coorte recente de Karachi relata Keros III em cerca de um terço das fossas.4, 8 Essas diferenças provavelmente refletem uma combinação de morfologia étnica da base do crânio, estrutura etária, seleção de imagem e escolhas metodológicas, e estão alinhadas com evidências meta-analíticas de que configurações de alto risco da base do crânio anterior se agrupam geograficamente.2
Terceiro, a assimetria e a inclinação da lâmina lateral são pelo menos tão importantes quanto o tipo de Keros absoluto. Estudos que usam critérios de medição rigorosos relataram assimetria na altura da lâmina lateral em 40–80% dos pacientes, mesmo quando o tipo de Keros é simétrico.4, 5 Isso explica por que grandes complicações da base do crânio continuam a ocorrer apesar da TC pré-operatória de rotina: o cirurgião pode instintivamente "seguir" o lado mais raso ou julgar mal a angulação ascendente do teto, particularmente em fossas Keros III com lâminas laterais longas e oblíquas.
Grandes séries de CEFE e revisões de imagem da base do crânio enfatizam que um escrutínio pré-operatório meticuloso das reconstruções coronais e sagitais, com documentação explícita do tipo de Keros em cada lado, do ponto mais baixo do teto e de quaisquer angulações acentuadas ou deiscências, pode reduzir marcadamente o risco de fístula de LCR, lesão orbital e hemorragia intracraniana.10, 12 A posição da artéria etmoidal anterior, as células supraorbitárias e outras variantes da base do crânio modulam ainda mais o risco e devem ser interpretadas em conjunto com a classificação de Keros, e não isoladamente.10
Finalmente, a evidência disponível ressalta as limitações de extrapolar distribuições de Keros entre populações. Centros que atendem pacientes de regiões com maior prevalência de Keros III – conforme sugerido por dados de TC da Turquia, Sul da Ásia e Oriente Médio – devem manter um limiar mais baixo para navegação guiada por imagem, dissecção em estágios e suporte de base do crânio ao abordar doenças inflamatórias ou neoplásicas complexas.
Conclusão
Estudos baseados em TC e CBCT de múltiplos continentes confirmam que o tipo Keros II é o padrão dominante do teto etmoidal, mas a proporção de fossas Keros III profundas e a frequência de assimetria do teto variam substancialmente entre populações. Séries de alta qualidade da Turquia, Índia e Paquistão sugerem que algumas coortes carregam uma carga significativamente maior de fossas profundas do que outras.4, 8
Para a cirurgia endoscópica de seios paranasais e da base do crânio anterior, a classificação de Keros permanece uma abreviação útil apenas quando interpretada em conjunto com a altura do teto específica de cada lado, a inclinação da lâmina lateral e os marcos vasculares e neurais adjacentes. A revisão rotineira e sistemática dessas características na TC pré-operatória – e a comunicação clara de quaisquer padrões de alto risco – é essencial para minimizar o risco de lesão da base do crânio e orbital.
Referências
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